'Água aqui é muito raro': esposa de agricultor que encontrou possível petróleo no CE relata falta de abastecimento na região

  • 17/03/2026
(Foto: Reprodução)
Maria Luciene e Sidrônio Moreira, casal do CE que encontrou possível petróleo ao perfurar poço artesiano. Gabriela Feitosa/g1 'Água aqui é muito raro, escasso, difícil', revela Maria Luciene Moreira, agricultora e esposa de Sidrônio Moreira, cearense que encontrou uma possível jazida de petróleo ao perfurar um poço artesiano para tentar obter água e sanar o problema de abastecimento que há anos atinge a família, em Tabuleiro do Norte (CE). Luciene e Sidrônio moram com dois filhos na zona rural da cidade, em um sítio chamado Santo Estevão, localizado a cerca de 35 quilômetros da sede de Tabuleiro. Durante dois dias, a equipe do g1 visitou a propriedade, que hoje abriga um imbróglio sem previsão de terminar: o líquido preto, denso e com cheiro de combustível encontrado por acaso nas terras da família é mesmo petróleo? LEIA TAMBÉM: 'Nunca foi nossa intenção achar petróleo', diz filho de agricultor que encontrou líquido no CE Achado de possível petróleo em poço raso no Ceará causa 'espanto' em técnicos da ANP Achado de possível petróleo em poço raso no Ceará 'causa espanto' em técnicos da ANP Enquanto não recebe uma resposta definitiva, Luciene, responsável por tarefas como cozinhar, cuidar da casa e também realizar o trabalho diário no campo, precisa ser criativa para driblar os problemas causados pela falta de água - realidade enfrentada não só por ela, mas também por vizinhos. Como a família não tem uma fonte própria, contam com água enviada pela prefeitura em carros-pipa e uma adutora que abastece a região. Para beber, eles compram água mineral na cidade, gastando cerca de R$ 100 por mês. A renda da família depende de dois salários mínimos (aposentadorias de Luciene e Sidrônio) e do trabalho que Sidnei, um dos filhos, faz no sítio: "Sou agricultora, filha de agricultor. Desde que nasci, sou da roça. Água aqui é muito raro, escasso, difícil. Antes vinha através de uma adutora, mas como as famílias aumentaram, e aqui a gente fica muito [afastado], não estava mais chegando a água. Aí tentamos cavar esse poço, para ver se melhorava mais. Ainda somos dependentes da água de carro-pipa. Eles estão fazendo uma adutora nova, mas ainda não terminaram", relata Luciene ao g1. Luciene tem 58 anos e trabalha com agricultura e tarefas de casa. Gabriela Feitosa/g1 O vice-prefeito de Tabuleiro do Norte, Antério Fernandes, afirmou que uma nova adutora - uma espécie de tubulação subterrânea criada para transportar grande volume de água - está sendo construída na zona rural da cidade e deve atender mais de 700 famílias. Uma delas é a família de Luciene. O prazo para a construção é o fim deste mês de março. A agricultora revela que os moradores da região que não têm poço próprio dependem da água que chega por meio do carro-pipa, mas a quantidade não é suficiente, sendo entregue apenas uma vez por mês: "A gente coloca em uma cisterna e usa para tudo: tomar banho, lavar roupa, fica para os animais beberem também. E esse foi o objetivo de cavar o poço, com a maior [esperança] de encontrar água. O vizinho cavou, deu água, mas quando foi aqui deu aquele líquido preto. Fiquei triste porque a gente queria água. Queria mesmo que resolvesse logo esse problema", relatou. Luciene cuida de animais e hortas no Sítio Santo Estevão. Gabriela Feitosa/g1 Luciene e a família não fazem planos caso o líquido "estranho" encontrado no terreno seja mesmo petróleo. Em relação a isso, eles preferem "manter os pés no chão", como Sidnei Moreira, filho dos agricultores, relatou: "A gente trabalha bastante com os pés no chão. A gente não sabe ainda o que é, se vai ser possível explorar esse material, a gente ainda não tem essa noção. E a gente vai continuar com a nossa vida normal no campo mesmo, porque nunca foi nossa intenção achar petróleo, sempre foi achar água". Maria Luciene concorda e não pensa duas vezes antes de responder: “Eu prefiro água”. Técnicos da Agência Nacional do Petróleo (ANP) visitaram o local pela primeira vez no dia 12 de março. Eles orientaram a família sobre isolar as áreas dos poços e não tocar no líquido achado. No entanto, não colheram amostra no local e vão analisar o material que foi colhido anteriormente pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE). Não há prazo para esta resposta. IFCE mediou contato com a ANP. Gabriela Feitosa/g1 "O que espero mais é que os órgãos resolvam esse problema, para a gente decidir de uma vez se tem condição de aqui ter água. Está nas mãos de Deus, mas nosso objetivo é ir atrás de água. Eu não tinha nem costume de ouvir falar disso [de petróleo], só na televisão. Foi até estranho na hora. Se aqui tivesse água eu estava cuidando das plantas, das verduras. Água é valioso", conclui Luciene. Caso seja confirmado, o agricultor poderá 'lucrar'? Sidrônio e família ao lado de primeiro poço perfurado para obter água. Gabriela Feitosa/g1 A resposta é complexa. Conforme os técnicos da ANP relataram ao g1, o agricultor não será dono do petróleo, pois a Constituição Federal determina que o subsolo e suas riquezas, incluindo o petróleo e o gás, são de propriedade e monopólio da União. No entanto, Sidrônio poderá ter um retorno financeiro caso a área passe por um processo de exploração e produção comercial no futuro. Dessa maneira, o proprietário da terra tem direito a receber um percentual. ➡️Mas, atenção: primeiro a agência precisa analisar se vale a pena explorar a bacia. Como dito acima, outros achados parecidos foram descartados por serem acúmulos pequenos. Esse repasse financeiro, garantido por lei, pode chegar a até 1%, dependendo de vários fatores que precisarão ser avaliados. Em resumo, embora o agricultor não tenha a titularidade sobre o recurso e não possa vendê-lo por conta própria, ele tem o direito de receber essa compensação financeira caso a extração comercial se concretize. LEIA MAIS: Sítio onde foi achado possível poço de petróleo precisa de carros-pipa para complementar abastecimento de água Caso petróleo seja confirmado, agricultor que furou poço no Ceará não poderá vender o combustível; entenda Vídeo mostra agricultor encontrando possível poço de petróleo ao perfurar em busca de água Possível poço de petróleo no sertão, demora da ANP e busca por água: veja linha do tempo Descoberta por acaso Vídeo mostra momento em que agricultor encontra possível poço de petróleo ao perfurar solo A substância semelhante a petróleo foi encontrada em novembro de 2024 enquanto o agricultor Sidrônio Moreira perfurava o solo em busca de água para abastecimento de animais da sua propriedade, na localidade de Sítio Santo Estevão. Um vídeo gravado pela família em novembro de 2024 mostra o momento em que Sidrônio e a equipe contratada furam o primeiro poço. Em determinado momento, um líquido escuro emerge do buraco e o agricultor chega a comemorar, pensando se tratar de água. Semanas mais tarde, porém, a família descobriu que o líquido pode ser petróleo. 📍Localizado a cerca de 210 quilômetros de Fortaleza, Tabuleiro do Norte fica na divisa com o Rio Grande do Norte e faz parte da região do Vale do Jaguaribe. A região fica próxima à Bacia Potiguar, uma área de exploração de petróleo localizada entre o Ceará e o Rio Grande do Norte. Tabuleiro do Norte não está inserido em nenhum bloco de exploração de petróleo, mas a localidade onde a substância foi descoberta está a apenas 11 quilômetros do bloco de exploração mais próximo. A família e o IFCE procuraram a ANP ainda em julho de 2025 informando da descoberta, mas desde então a agência não havia respondido. Somente no dia 25 de fevereiro o órgão se manifestou, respondendo a um pedido de informação do g1. Na comunicação, a Agência disse que iria abrir um procedimento administrativo para investigar o caso, mas que não há data de conclusão. Mesmo que o petróleo seja confirmado, o agricultor não poderá comercializar o combustível, uma vez que, no Brasil, riquezas encontradas no subsolo pertencem à União. Conforme a legislação brasileira, a Agência Nacional do Petróleo e Gás (ANP) deverá confirmar se a substância é de fato petróleo; mesmo se for confirmado, o dono do terreno não poderá extrair nem vender o combustível. Assista aos vídeos mais vistos do Ceará:

FONTE: https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2026/03/17/agua-aqui-e-muito-raro-esposa-de-agricultor-que-encontrou-possivel-petroleo-no-ce-relata-falta-de-abastecimento-na-regiao.ghtml


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